quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O Mundial de Tango e a história do senhor Megata

Por Gisele Teixeira

Onde quer que esteja, o senhor Megata deve estar bem satisfeito. Hiroshi Yamao, de 36 anos, e sua esposa Kyoko, de 33, são os melhores bailarinos de tango salão do mundo.

Na última sexta-feira, após uma seleção que envolveu 300 casais, eles levaram para casa um título inédito. São os primeiros campeões não argentinos nesta categoria que é chamada também de tango social (o tango dançado nos bailes, sem acrobacias). É mais ou menos como se as japonesas derrotassem as mulatas do Rio de Janeiro no quesito samba no pé, em pleno Sambódromo.

Foi emocionante. Estava na primeira fila quando anunciaram os vencedores. Então vi bem de pertinho o momento em que Hiroshi Yamao soltou um grito e começou a chorar compulsivamente. Quase chorei também, principalmente porque imagino o que significa para um japonês, criado em uma sociedade tão competitiva e rígida, dançar, chorar, gritar, abraçar, vencer. É a quarta vez que competem. E sabe por que ganharam? Porque entenderam. “Para nosotros el valor del tango es que permite que la gente se encuentre”, disse Hiroshi, nos camarins.

Quem circula pelo mundo tangueiro não ficou surpreso com a vitória dos japoneses. Eles são fascinados pelo tango. De acordo com a Academia de Tango do Japão, há mais de 70 milongas distribuídas entre a capital Tóquio e outras cidades como Osaka, Kobe e Nagoya. E umas 100 associações, clubes, pequenas comunidades e centros culturais onde se escuta e dança tango, e se compartem histórias, tal como acontece em muitos lugares de Buenos Aires.

Os bailarinos portenhos são deuses no país oriental – que se transformou em um dos principais mercados para professores – e os músicos argentinos não deixam o Japão de fora de nenhuma turnê mundial. As academias de dança daqui estão cheias de japoneses e um dos principais sites de tango, o 10tango.com, tem versão em espanhol, inglês e japonês.

Há muitas discussões sobre por que o tango atrai tanto os japoneses. Alguns dizem que o som do bandoneón remete a melodias tristes nipônicas. Outros defendem que o contato que proporciona a dança permite aproximações físicas muito raras nessa cultura.

Creio que o tango fisga os japoneses pela mesma razão que atrai outras nacionalidades: a emoção. “Me sale de aquí adentro”, disse esta semana Fuki Aoki, apontando para o coração. Fuki é uma japonesa que há dois anos cantava ópera. Veio visitar a Argentina por uns dias e passou para o tango, sem escalas.

Essa paixão dos japoneses pelo 2x4 começou com Tsunayoshi “Tsunami” Megata, filho de um diplomata e neto de um samurai, que viveu em Paris de 1920 a 1926. Na capital francesa, aprendeu a bailar tango – dizem que muito bem – e voltou para casa com a bagagem cheia de discos.

Em Tóquio, instalou a primeira academia de baile e publicou o primeiro livro sobre o tema - Um Método para Bailar o Tango Argentino.

Megata foi tão importante para a difusão da dança em seu país, que ganhou um presente à altura. Um tango, por supuesto. Em 1981, Luis Alfredo Alposta compôs a letra "A lo Megata: “Y tal vez ahora..alguien, allá en Tokio, elegantemente, baile a lo Megata sin saber quién fue." Os limites e as fronteiras são mesmo para as mercadorias. O tango viaja sem pedir licença.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo (giseleteixeira.wordpress.com), com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha.

Abaixo, a emocionante vitória do casal japonês e um trecho da dança deles.


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Um comentário:

Eduardo disse...

Eh!! Estuve ahí, fue muy emocionante!
Soy el "personal porteño" de Gisele y su esforzado compañero de tango.
Lindo blog!